Our Blog / Todo conceito é compreendido quando amado (George Mendonça)

Entrevista com Júlio Cesar Neves realizada pelo Professor Ronald Costa (via e-mail) no dia 08 de março de 2011

Júlio Cezar Neves estará no FLISOL DF. Realmente um grande ícone brasileiro em Software Livre e tem desenvolvido várias palestras nos eventos de informática como FISL e Congressos de Informática no Brasil e no exterior, sendo hoje a referência de programação em Shell script e migração para Software Livre. Ele ministrará uma palestra sobre Bash 4.0++ e a oficina Espremendo as Expressões Regulares.

Veja a entrevista:

RONALD – Atualmente o Senhor está trabalhando onde? Em algum projeto com Software Livre (SL)?
JÚLIO – Atualmente estou trabalhando no SERPRO, ajudando a difundir internamente o uso de SL. Também coordeno o Comitê de Implementação de SL nas empresas do Governo (CISL).

RONALD – Há quanto tempo o Senhor trabalha com SL?
JÚLIO - Há mais de 15 anos. Publiquei um livro sobre Bash em 1999.

RONALD - Como o Senhor aprendeu SL? Todo mundo é autodidata neste assunto?
JÚLIO - Na minha opinião, SL não é coisa que se aprenda. São softwares como outros quaisquer, que atualmente abrangem todas as áreas do conhecimento.  O que os difere dos outros é a sua filosofia de liberdade.

RONALD - Quais os seus projetos pessoais com SL?
JÚLIO - Aproveitei este carnaval para acabar de escrever mais um livro sobre o tema. Contribuo com o SL de todas as formas possíveis, mas principalmente em sua divulgação em palestras e treinamentos.

RONALD - Como o Senhor descreveria a trajetória do SL no Brasil? E no Governo Federal? É algo passageiro no Brasil?
JÚLIO - Acho muito difícil haver um retorno ao software proprietário. Aqui no Brasil já houve o caso de uma empresa fortemente informatizada com SL tentar voltar para Software Proprietário (SP) após a troca da diretoria e o corpo funcional rechaçar a ideia. Acho difícil que haja um retrocesso nesse sentido, porque o SL está muito ligado à ideia do patriotismo e soberania.

RONALD - O Senhor é professor do Ensino Superior, de acordo com seu currículo, e utiliza SL em suas aulas como ferramenta didática?
JÚLIO - Eu utilizo SL em absolutamente tudo. Há mais de 10 anos não utilizo SP para absolutamente nada, exceto no meu celular e assim mesmo é minha prioridade trocá-lo.

RONALD - Qual a sua opinião sobre o uso de Software Livre como ferramenta pedagógica no Ensino Superior? Considera que isso pode contribuir para o aprendizado do aluno?
JÚLIO - Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Falando especificamente sobre formação em TI, tivemos uma experiência com turmas formadas em SL e em SP.  A diferença entre ambas era marcante. Na década de 80 o Brasil era o 6º do mundo em TI. Aqui produzíamos 80% do que consumíamos a nível de Hardware e de Software. Ou seja, competência nós temos e vejo o SL como a grande ferramenta aliada para que isso volte a acontecer. É necessário, no entanto, que o corpo docente abandone a zona de conforto e os convênios “microsoftianos” de forma que se possa adotar SL nas ementas universitárias.

RONALD - O que o Senhor diria para um jovem que está iniciando em Informática (TI) e apenas sabe utilizar softwares proprietários?
JÚLIO - Diria para ele que no momento em que ele cruzou pela 1ª vez as portas da universidade, o futuro dele começou. Nesse exato momento sua cabeça tem de passar a pensar no futuro. E o futuro é livre. Atualmente 70% dos servidores do mundo usam SL. A grande maioria dos hand helds, netbooks, smart phones e tablets tb usam SL. O SP está confinado aos desktops e essa camada está com os dias contados. Não tenho a menor dúvida ao afirmar que daqui a 4 anos (quando os atuais calouros estarão indo para o mercado de trabalho), que a grande solicitação de mão de obra será de SL.

RONALD - Qual a sua opinião sobre o Festival Latino Americano de Software Livre?
JÚLIO - Creio que todos os eventos de SL devem buscar um novo rumo. A época dos install fests e das evangelizações já passou. Atualmente é muito mais simples instalar um Ubuntu ou um Linux Mint do que instalar um Windows. Também as evangelizações não são mais necessárias porque todos sabem que o SL é mais seguro, mais barato, … enfim tudo que durante anos falamos em nossas palestras. Acho que hoje os eventos deveriam ser voltados a “mostrar como se faz”. A mostrar que o Linux não é comunista, nem come criancinhas. Muitas pessoas têm curiosidade e gostariam de experimentar mas não sabem como começar. Fizemos uma experiência interessante na LatinoWare, em 2010: deixamos um laboratório alocado ao que chamamos de “Linux de A a Z” para que as comunidades das distros mostrassem os seus produtos, destacando instalação e administração básica. Confesso que fui contra a ideia, porque a LatinoWare é um evento muito técnico e achava que isso seria por demais newbie para o ambiente. Para minha surpresa, foram 6 oficinas de 4 horas com os 30 lugares lotados. Moral da história: mesmo em um ambiente formado pela elite técnica, existia muita gente que estava ali para ver se encontrava a ponta do fio da meada para enveredar pelo SL.

RONALD - Quais as expectativas para a edição do FLISOL no Distrito Federal?
JÚLIO - Não será a 1ª vez que participarei do FLISOL-DF e garanto que de todos que participei o do DF foi, disparado, o melhor e justamente por isso que aceitei o convite.

RONALD - Como será o seu mini-curso de SHELL? O que diria para os interessados em participar dessa atividade?
JÚLIO - A oficina não será de Shell. Há muito tempo venho evitando dar mini cursos de Shell em função da exiguidade de tempo. Prefiro lecionar Expressões Regulares que servem para qualquer linguagem (e VB nem ASP são linguagens;) e para todos os bons editores como o LibreOffice, o Latex, o Vi e o Emacs. Desta forma o tempo é mais que suficiente.

RONALD – Muito obrigado Júlio por atender ao nosso convite de participação no FLISOL-DF e especialmente pela entrevista. Quem sabe no futuro marcamos um twitcam para falar de Software Livre no Ensino Superior?

JÚLIO – Como já disse, estou e estarei sempre disposto a ajudar na divulgação do SL, principalmente no meio acadêmico, de onde sairão as cabeças pensantes do futuro.

georgemendonca

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